Volto à carga : tentativa de observar Vénus …com algum sucesso.
Já aqui há tempos perguntei a melhor forma de observar Vénus. Obtive uma resposta cabal do Guilherme de Almeida que me elucidou totalmente.
Nas minhas observações sempre usei um bonóculo 10×50 , mas recentemente fiz um upgrave e investi nuns 15×70. Ontem, ao final da tarde Vénus estava a poente e brilhava como um candeeiro no céu.
Resolvi tentar ver alguma coisa . Como de costume o espigão de luz quase não me permite ver nada. Depois de alguma aturada focagem, lá consigo ver umas formas, mas confesso que começo a ficar algo cansado ( vou sustendo a respiração) e depois já não tenho a certeza de estar a focar bem.
Logo, se o tempo estiver bom, vou usar o tripé.
O que queria perguntar , era isto : existe alguma forma fácil de perceber se estamos a focar bem?
É que de dia , é relativamente fácil, apontamos o binóculo para um letreiro, ou uma casa e pronto, as formas ficam perceptiveis e sabemos de imediato que está focado. Mas à noite…
Já uma vez me falaram que devia usar as estrelas , que devem aparecer como pontinhos nitidos, mas mesmo assim, é tão dificil…tenho sempre dúvidas se está bem focado.
Alguma dica?
No caso de Vénus, há quase sempre excesso de brilho, que dificulta o reconhecimento da forma do planeta. Note que, com 15x, só será fácil ver o crescente ou o minguante nas fases em que o planeta está como uma unha cortada no corta-unhas, ou seja, quando faltam menos de duas semanas para a conjunção inferior (Vénus como “estrela da da tarde”); ou então menos de duas semanas depois da conjunção inferior (Vénus como “estrela da manhã”) ver nota final. Aqui o brilho é menor e o crescente ou minguante (falcada, ou seja, bem menos de meio disco), será fácil de observar com o binóculo num tripé.
***
Fora dessas situações, com 15x não espere ver muito. Com sorte, conseguirá ver metade do disco, com aparência minúscula e muita (demasiada) luz. Nas fases mais cheias do que isso, o diâmetro aparente de Vénus é bastante mais pequeno e não espere ver o disco, em forma de giba (entre meio disco e disco cheio), com 15x. Isso requer uma amplificação maior do que 15x. Quando mais “cheio” estiver o planeta, maior será o excesso de brilho e menor será o diâmetro aparente do planeta. Para reduzir o brilho, filtre, usando filtros sobre as oculares, ou experimente usar óculos muito escuros, juntamente com o binóculo, mas não diafragme as objectivas.
***
Para referência, o diâmetro aparente de Vénus, visto da Terra, varia aproximadamente entre 10″ e 62″. É máximo quando Vénus passa entre a Terra e o Sol (quando o Sol e Vénus têm a mesma longitude eclíptica diz-se que o planeta está na conjunção inferior). E apresenta o diâmetro aparente mínimo quando o planeta passa do outro lado do Sol, novamente com a mesma longitude eclíptica que a nossa estrela (situação designada por conjunção superior). Nas conjunções (em sentido estrito), o planeta não é observável.
***
Para a focagem, note que raramente temos os dois olhos iguais. Por isso, a maior parte dos binóculos tem uma focagem central, focando dos dois lados, mais uma focagem independente só para a ocular direita. Para focar o binóculo, tapa-se a objectiva direita e foca-se com a focagem central, para o olho esquerdo; depois tapa-se a objectiva esquerda e foca-se com a focagem individual da ocular direita, para o olho direito. Se o binóculo não tiver focagem central, mas sim focagem separada para cada ocular, faz-se como acima, focando separadamente as duas oculares.
____________________
Nota final – Nestas situações, quando escurece, com o céu já azul muito escuro, Vénus já não está muito alto (na situação de estrela da tarde); e quando, de manhã, o céu já está azul muito escuro, Vénus também não estará muito alto. Ou seja, nestas situações mais fáceis (na tal forma de unha cortada no corta-unhas) a elongação de Vénus, em, relação ao Sol já é menos de metade da elongação máxima (elongação máxima aprox 46º -47º).
Veja que elongações destas também ocorrem pouco antes ou pouco depois da conjunção superior (Vénus já a passar para mais longe do que o Sol) , mas aí o o planeta Vénus mostra-se quase cheio e é muito pequeno. Demasiado pequeno para um binóculo de 15x , ou até que fosse de 25x.
Guilherme de Almeida
Muito obrigado pela sua resposta . Há alguns conceitos e explicações que o Guilherme utiliza que me escapam , mas no geral compreendi , e faço sempre uso do que me vai ensinando por aqui. Por exemplo , segui o seu conselho e ontem ( o céu abriu ao final do dia) lá segui Vénus e vi a tal “unha” de que falava. Com alguma A.C. é certo, mas mesmo assim, valeu muito a pena.
Na sequência desta experiência, coloquei uma outra questão ( Pergunta feita aqui no fórum)
Outra pergunta: depois da focagem feita no binóculo ( botão central, focagem na ocular da dioptria, e distância interpupilar) aproximamos , e afastamos um …planeta, por exemplo, com o botão do meio, certo?
É que estive a ler umas coisas , e fico na dúvida…
Depois do binóculo ajustado, continuamos a usar o botão do meio, para focar. Ou não?
Muito obrigado.
Boa tarde,
Ao dizer “aproximamos e afastamos o planeta com o botão do meio”. Isso só faria sentido se o seu binóculo tivesse zoom. Por exemplo, se fosse um 15-25×70 (amplificação de 15x a 25x), mas esse não é o caso, pois já me disse que é um 15×70.
É claro que só me perguntou como focar. Além disso, há que regular a distância entre as duas metades do binóculo de acordo com a sua distância interpupilar (do observador). Haverá uma distância ótima entre as duas metades do binóculo em que as duas imagens se fundem numa só, sem esforço visual. Se não é possível fundir as duas imagens numa só, sem esforço visual, então o binóculo estará descolimado (os dois eixos óticos, das duas metades do binóculo não estão paralelos entre si). Normalmente os binóculos descolimam-se se levarem uma pancada forte, ou se acidentalmente caírem ao chão.
GA