Caríssimos utilizadores do Astronomia Q&A,
Parece inequívoco que, em Portugal, após uma “época de ouro” no entusiasmo amador por Astronomia e por querer observar (por si mesmo) os astros, se atingiu um pico por volta de 1995-2000. Depois disso, os entusiasmos foram arrefecendo. São agora uma pálida sombra do que eram.
Na verdade, desde 2000, a compra de telescópios, de acessórios e de livros que mostram como se observa e como se utilizam telescópios decaiu enormemente. Algumas lojas deste equipamento foram forçadas a fechar. E as que subsistem entre nós, vendem pouco e cada vez menos. Quando se fazem encontros de interessados na observação do céu, a assistência, que era de largas centenas, é agora, com sorte, de 25 a 50 pessoas.
Podem, alguns, dizer que “é da crise”. Mas a mesma crise não se manifesta (ou pelo menos não se espelha) na compra e procura de produtos e serviços bem mais dispendiosos e nem por isso abandonados: jogos de futebol regularmente assistidos ao vivo (bilhetes dispendiosos), Smartphones, Iphones e IPad’s (sempre da última geração), restaurantes regularmente frequentados e sempre cheios, etc., etc. Não se dá 25 euros por um livro, ou 350 euros por um telescópio Dobson (acha-se que “é caro”), mas compram-se sucessivos telemóveis de mais de 700 euros…, bilhetes de 150 euros…, almoços caros… E, para isso, o dinheiro existe. Mas para livros, equipamento e actividades observacionais, “já não há”. Parece não ser uma falta (só) de dinheiro, mas antes de interesse, de vontade, de motivação, de prioridades e de curiosidade.
Idêntica opinião com a qual concordo inteiramente, se verifica no Ad Astra (http://www.ad-astra.pt/a-ad-astra/ ), do qual, com a devida consideração, transcrevo o seguinte:
“Durante a segunda metade da década de 90, houve um enorme esforço por parte de algumas entidades nomeadamente do Ministério da Ciência e da Tecnologia, no sentido de divulgar a Astronomia, chegando a haver centenas de eventos de Norte a Sul do País, proliferando os grupos e as associações, as quais levavam junto do cidadão comum, a possibilidade de poder conhecer melhor por exemplo: os instrumentos de observação, aprender mais acerca do nosso Sistema Solar, ou ainda discutir acerca das teorias da formação do Universo entre outros.
Nessa época áurea da Astronomia de Amadores, era comum juntarem-se centenas de pessoas, para assistir a encontros, palestras e sessões de observação. Muitos dos actuais Astrónomos Amadores, viram o seu interesse despertado, durante estes eventos. Alguns realizaram e ainda estão a realizar excelentes trabalhos nas várias áreas da Astronomia.“
“(…) Neste período houve igualmente alguns acontecimentos aos quais a comunicação social, sempre tão parca na divulgação científica, deu algum relevo, nem sempre da melhor forma é certo, mas chamando a atenção para o que ia acontecendo no nosso céu, como por exemplo a passagem de cometas brilhantes, eclipses solares e lunares ou ainda as descobertas de novos sistemas solares até há bem pouco tempo desconhecidos.
Vários anos decorridos, infelizmente o fulgor dos grupos e das associações decaiu imenso, criando um “vazio” na divulgação e consequentemente um decréscimo nas pessoas interessadas nesta área da ciência.“
Seria interessante ler o que têm a dizer sobre isto os frequentadores do nosso “Astronomia Q&A”.
Haverá provavelmente razões, ocultas ou não, que nos escapam. Haverá diferentes perspectivas, com múltiplas razões que seria interessante conhecer. Está aberta a troca de ideias.
Guilherme de Almeida
https://www.wook.pt/autor/guilherme-de-almeida/5235
http://www.platanoeditora.pt/?q=N/SEARCHBOOKS/861&sType=AUTHORID&maid=292
Acho que o Hubble pode ter contribuído um bocadinho para isso: as imagens fantásticas que chegam até nós proveniente do telescópio espacial Hubble pode desiludir os iniciantes em observações astronómicas. Observar planetas, cometas e eclipses não é tão emocionante, na minha opinião, como observar nebulosas, diferentes formatos de galáxias, etc.. Parece que os telescópios amadores tornaram-se obsoletos porque não permite observar outras galáxias.
Boa noite,
Embora o aspecto que indica possa ser relevante (e é realmente, para algumas pessoas), os telescópios de amador permitem observar outras galáxias.
Por exemplo, pense na lista de Messier. O Charles Messier (1730-1817) descobriu uma grande parte dos os 110 objectos dessa lista (e observou todos) com um telescópio que, pelos critérios de hoje não era grande (tinha 108 mm de abertura) e não era opticamente muito bom. Mas, para observar nebulosas e galáxias, é preciso que a poluição luminosa seja muito baixa, coisa cada vez mais difícil de obter perto de casa. Hoje, por menos de 450 euros, um amador tem facilmente um telescópio dobsoniano de 200 mm de abertura, que capta mais de 3,4 vezes a luz que captava o instrumento utilizado por Messier. E um dobsoniano de 150 mm por menos de 340 euros.
Sobre Charles Messier:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Messier
http://www.astro-rennes.com/initiation/catalogue_messier.php
http://www.space.com/16686-charles-messier-biography.html
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Note-se que mesmo um telescópio de D=150 mm permite observar centenas de galáxias. Mesmo se formos algo irregulares e menos empenhados, podemos ver algumas dezenas de galáxias em pouco tempo. Porém, concordemos, não as veremos com o impacto visual das imagens do Hubble. Mas por outro lado, observar por nós mesmos, ao vivo pode ter também a sua faceta interessante. Seria interessante ler a opinião de mais pessoas sobre este interessante problema de abandono. Ou de mudança de prioridades.
Há quem prefira comprar um objecto que “dá” estatuto social, que pode ser exibido em lugares públicos, e que (quase todas as pessoas interpretam como sinal de prosperidade do seu dono: um telemóvel topo de gama. Mesmo que lhe custe mais de 700 euros. Um telescópio de entrada (mesmo que seja de 150 mm ou 200 mm), pode custar menos do que um top smartphone, ou o último grito dos hi-phones, não mete tanta vista e cada vez menos pessoas o parecem apreciar.
Guilherme de Almeida
Esta é uma pergunta feita aqui há dois anos e que continua hoje tão oportuna quanto preocupante. Acredito que não haja sequer um motivo que se destaque dos restantes ou que por si só justifique este gradual desaparecimento de entusiasmo pelas ‘observações astronómicas’ (e digo pelas ‘observações’, pois não tenho a certeza que se trate de desinteresse pela Astronomia).
Concordo em absoluto com o autor da pergunta, quando diz não acreditar que o problema esteja ligado à falta de dinheiro, não só pelos exemplos que refere mas também porque a crise surgiu e se acentuou dramaticamente a partir de 2008; o desinteresse terá surgido muito antes disso.
Um dos motivos que poderá estar relacionado com este desinteresse pela ‘actividade prática’ da astronomia, terá a ver com a noção que ao longo dos últimos anos tem sido transmitida pelos media, acerca dos meios de investigação.
Estaremos perante um efeito perverso da divulgação?
Lemos (e vemos na Web e nas tv’s) notícias, fotografias e vídeos sobre galáxias distantes, encontros com cometas, naves para lá do Sistema Solar, telescópios espaciais, telescópios terrestres com sofisticadas ópticas adaptativas, buracos negros, ondas gravitacionais, robots em Marte, sei lá! De que serve então construir ou possuir um pequeno telescópio? O que posso eu ver que não tenha já visto melhor? Que utilidade ou contribuição para o conhecimento (pessoal e da comunidade) poderá ter o meu interesse e dedicação, se vou competir com máquinas que custam milhões?
Como comecei por dizer, deverão existir diversos motivos para o pouco entusiasmo pela ‘observação’ astronómica. Este poderá ser um deles.